domingo, 23 de janeiro de 2011

A face feia do filme “Biutiful”

Falta do que fazer é uma coisa mesmo... No meu caso, acabo indo ver um filme atrás do outro no cinema, mesmo já tendo dito que isto não é muito indicado, já que pode embaralhar as coisas na cabeça de quem assiste. Essa minha reincidência me faz lembrar o que um amigo disse sobre mim (pra mim, claro, já que é amigo), certa feita: que, de tão incoerente, sou coerente. Adorei a descrição!
Hoje vi, por último, “O Turista”, com Angelina Jolie. É aquela produção americana cujo final todo mundo já sabe: feliz! Dele não vou falar agora.
Antes de “O Turista”, assisti ao “Biutiful”, do cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu, que fez "21 Gramas" e "Babel". "Biutiful" é uma produção hispano-mexicana, com final bem previsível pra quem conhece produção europeia (tá, tudo bem, não é só europeia, mas principalmente...).
Ele narra a história de Uxbal, interpretado pelo espetacular Javier Bardem (o mesmo de “Onde os Fracos Não Tem Vez” e “Vicky, Cristina e Barcelona”) e se passa em Barcelona. O longa trata de muitos assuntos sensíveis e de “biutiful” não tem nada. Mostra mesmo é a face feia da vida. E com uma força brutal.
Uxbal cria dois filhos, uma de 10 e um de 7 anos, cuja mãe, de quem é separado, é bipolar. A propósito, o nome do filme foi inspirado numa cena em que o pai está ajudando a filha a fazer o dever de casa de inglês e ela pergunta como se escreve beautiful, quando ele lhe responde que se escreve como se fala. Sobre a ex-mulher, é retratado na película o que uma família com mãe bipolar pode sofrer. É tão real nesse ponto que parece documentário, pois mostra com uma realidade cruel as idas e vindas de uma pessoa bipolar, o que ela pode fazer com si mesma e com os filhos.
Não bastasse a bipolaridade de uma pessoa, fala de uma outra doença abominável: o câncer. Uxbal se descobre com câncer de próstata, que já migrou para ossos e fígado, com previsão de 2 meses de vida. E sofre absurdo com o fato de deixar seus filhos órfãos.
Então tá: até agora estamos falando de um pai, que tem câncer em fase terminal e duas crianças, cuja mãe é doida de pedra.
Continuemos...
Uxbal é vidente e, por isso mesmo, vê assombração pra todo lado. Um dos trabalhos dele é visitar mortos em velórios e ter um contato com eles. E dar o recado para as famílias. E quando dá o recado, ainda sofre com a hostilidade de algumas dessas mesmas famílias que o pagam pra isso.
Ok. Falamos até agora de alguém que vai morrer em poucos dias, tem duas crianças que não podem contar com a mãe e sofre com as consequencias de sua mediunidade.
Não bastasse tudo isso, o homem espanhol tem como ocupação oficial explorar a mão-de-obra de imigrantes chineses e africanos em Barcelona. Barcelona está irreconhecível na história. Depois que fiz o Caminho de Santiago de Compostela e conheci a parte rural da Espanha, achei Barcelona um espetáculo de cidade!!! Mas no filme é como se o diretor tivesse levado o México (que só conheço por filmes...) à Espanha, já que a charmosa metrópole europeia é vista quase que exclusivamente pelas ruas degradadas dos bairros pobres. Os chineses fabricam produtos falsificados em situação de trabalho escravo e os africanos vendem no comércio informal.
Uma amiga que mora em Barcelona me disse que existe um grave problema social lá em relação aos imigrantes africanos. Li que o fato de não ter eletricidade, emprego, educação ou água corrente em muitas regiões da África, bem como diante da proximidade geográfica com a Europa, a perigosa viagem nas mais traiçoeiras águas do mundo é tida por muitos como um risco que vale a pena. Porém, eles passam a morar na Espanha em condições de vida e de trabalho subumanas.
Além de atravessador, Uxbal recebe o dinheiro da propina para policiais fazerem vista grossa na fiscalização do trabalho dos camelôs. Então, minha gente, ainda por cima o filme trata da corrupção da polícia!
Uxbal se envolve emocionalmente com esses imigrantes e suas famílias. Tem umas cenas chocantes, em que acontece um acidente com aquecedores baratos que ele, na intenção de ajudar, comprou e instalou no cômodo em que cerca de 30 chineses, entre homens, mulheres e crianças, dormem juntos, a porta trancada e, por defeito nos aparelhos, quase todos morrem. Sobra um homem. Outras cenas mostram a violenta prisão de um africano, que é deportado e cuja esposa e filho bebê permanecem no país.
Nos seus últimos dias de vida, Uxbal é cuidado por essa africana.
Concluí que “Biutiful” é surpreendentemente mais dramático do que “Além da Vida”, de Clint Eastwood e que intitulei “visceral” a um primo. Antes de ver “Biutiful” eu acho que não sabia o significado da palavra visceral. Dá ressaca moral braba depois de ver. E só é indicado pra quem não sofre de depressão, pois alguém nesse estado sairia do filme pronto pra uma internação.

Um comentário:

  1. Eu queria ir ver...Mas, depois do que me disse, vou pensar no assunto. Tem filme que dá um nó na cabeça da gente...Obrigada pela crítica maravilhosa! Beijos
    Fabis

    ResponderExcluir

Diga lá!